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Dia 28 - COC 6º ano

Dia 29 - COC 7º ano

Dia 30 - Reunião de pais 4º ano EFI 

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Dia 11 - Recesso Escolar

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A democracia de Figueiredo Imprimir E-mail
Escrito por Gustavo França   
12-Jul-2010
Da última vez em que escrevi, procurei esboçar um retrato da política brasileira, não conhecendo outro caminho para fazê-lo senão a partir de sua figura central: o presidente Lula, que, nos últimos oito anos, adquiriu tamanha força política que não só é capaz de manipular tudo o que ocorre entre o Oiapoque e o Chuí, mas também angariou vulto no cenário internacional, sendo a comunidade internacional quase unânime em considerá-lo notória e respeitável autoridade em política e em diplomacia, com ares de estadista (atenção, não estou dizendo que ele seja, apenas que é assim considerado). Esse protagonismo do nosso presidente foi exercido recentemente quando ele orquestrou um acordo com o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad sobre o seu programa nuclear, na tentativa de evitar sanções da comunidade internacional ao país, que só fariam aumentar a já exorbitante tensão que ronda o caso.

A importância de Lula foi exaltada e a participação do Brasil louvada (ao contrário do que muitos meios de comunicação dominados pelas elites antilulistas tentaram nos fazer acreditar, grande parte dos analistas da política internacional concordou que o Brasil deu um passo importante para se afirmar no cenário mundial ao manter uma diplomacia independente nessa questão), mas seus objetivos não foram atingidos. O Conselho de Segurança da ONU aprovou as sanções, a despeito do acordo. Ao olharmos rapidamente o caso, certamente parece que Lula está do lado errado. Não devem a violência e a belicosidade, representadas pela disseminação das armas nucleares, ser coibidas? Não deve um abominável ditador como Ahmadinejad ser isolado? Não é nosso dever propagar a democracia pelo mundo, em defesa dos povos oprimidos?


Por mais chocante que seja, sou obrigado a responder "não". Quando, inebriados pela beleza da democracia, imbuímo-nos de um desejo de socorrer aqueles que não a têm, acabamos perdendo de vista a real origem da sua maravilhosa essência. A democracia é o governo do povo, no qual a vontade da maioria prevalece, mas com respeito às minorias, com respeito a todos, todos têm vez e voz para expressar suas convicções, por mais extremas ou bizarras que sejam. Assim, a verdadeira democracia só pode surgir do clamor popular. Ela precisa ser conquistada, jamais imposta. Um povo que tem uma democracia que não conquistou não lhe dá valor e a corrompe. A imposição é justamente o maior inimigo da democracia. Quem muito bem resumiu esse método "democratizador" foi o general João Batista Figueiredo em sua célebre frase: "Vou fazer a democracia e quem não concordar eu prendo e arrebento." Na época, seu pensamento foi considerado anedótico, mas hoje muitos de nós estão envolvidos num espírito de democracia de Figueiredo.


A pura ideia de sanção já é, por si só, antidemocrática. O verdadeiro democrata respeita e aceita todos os que lhe são divergentes, inclusive os antidemocráticos. Não concorda com os atos de Ahmadinejad nem os aprova, mas o respeita e o confronta somente por meio da discussão e da argumentação. Quem sai por aí batendo no peito, se dizendo defensor da democracia e advoga o banimento da Mein Kampf das bibliotecas não é senão um arauto fajuto de uma democracia ilusória. Quem quer isolar os comunistas, os nazistas por eles serem antidemocráticos está sendo mais antidemocrático do que eles. Discursos como "não falo com você porque você não é democrata" são a essência do que uma democracia se propõe a antagonizar. Não há nada mais antidemocrático do que "quem não concordar eu prendo e arrebento". É isso o que pretendemos fazer com o Irã. "Vamos disseminar a democracia pelo mundo e, se o Ahmadinejad não concordar, nós o sancionamos, invadimo-lo e o arrebentamos." O verdadeiro mote democrata, muito distante de quaisquer dessas posturas, é o princípio de Voltaire: "Não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo."

Aliás, é bom lembrar que, quando se trata de "defender a democracia", a hipocrisia norte-americana é comum e conhecida de todos. Desde que se tornaram uma superpotência, ao fim das Guerras Mundiais, os EUA fizeram tudo o que se possa imaginar alegando que "lutavam pela democracia", sem que nem uma única vez tenha se ouvido falar de uma democracia instalada com a contribuição do Tio Sam. Claro exemplo disso foi a invasão ao Iraque, deflagrada há poucos anos, quando os EUA ignoraram a opinião da ONU e de todo o mundo (o curioso é que não se falou de sanções nesse caso). Mesmo que, num instante de pueril inocência, decidamos acreditar não só no Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa e no bicho-papão, mas também que o interesse americano era levar a democracia aos pobres iraquianos e não se apossar do seu petróleo, isso não torna o gesto menos absurdo. "Levar a democracia a outro país" é profundamente antidemocrático. Só quem pode fazer a democracia no Iraque é o próprio povo iraquiano.


Os mais pragmáticos vão me acusar de estar sendo delirante ao promover devaneios sobre ideias políticas, quando o caso do Irã não é sobre filosofias da democracia, mas sobre a realização da paz mundial, impedida pela proliferação de armas nucleares. Nesse sentido, afirmo que a mesma hipocrisia que se verifica em relação à disseminação da democracia existe também quando se fala das bombas atômicas. É claro que sou a favor do desarmamento, mas ele tem que ser geral, não é possível que alguns países possam ter armas nucleares e outros não. Os EUA têm, a Rússia tem, a França tem, a Inglaterra tem, Israel tem, a Índia tem, o Paquistão tem. Quem está em condições de atirar a primeira pedra? Quem pode dizer que o Irã está proibido de possuir seu próprio arsenal?


A seguir, argumentarão que o problema é que o governo iraniano não é flor que se cheire, representando real ameaça à paz. É verdade. No entanto, eu convido todos a ampliarem o seu olhar pela região e prestarem atenção àqueles quer cercam o Irã. O governo de Israel, que tem armas nucleares e é controlado por extremistas terroristas que, nas últimas décadas, desde a época do demoníaco Ariel Sharon, vem colecionando atrocidades como assassinatos, tortura, sequestros, guerras sem sentido, uso de inocentes como isca, teste de bombas em alvos civis, por acaso, é flor que se cheire? O governo do Paquistão, que também tem armas nucleares, é flor que se cheire? E quanto aos demais Estados árabes controlados pelos fundamentalistas islâmicos? Isso, sem mencionar que as tropas norte-americanas, inimigas declaradas do Irã, estão em dois países ali vizinhos, o Iraque e o Afeganistão (aliás, o grande humanista Baby Bush chegou a ter a ideia de dar um pulinho para o lado e invadir o Irã, mas foi dissuadido pela voz da razão de seus conselheiros, que o lembraram de que aquelas fronteiras iranianas são de desertos e montanhas e uma operação dessas resultaria numa reedição do Vietnã). Diante desse quadro, vamos realmente afirmar que o Irã não tem a necessidade nem o direito de se defender?


A próxima crítica que decerto me farão será a seguinte: "Defender-se? Desde quando bomba atômica é uma arma de defesa?" Novamente, devo sugerir um olhar mais atento para a natureza da bomba atômica. A princípio, é claramente uma arma de ataque. Entretanto, ao investigarmos a verdadeira serventia, o verdadeiro objetivo de se ter uma arma nuclear, veremos que a bomba atômica é efetivamente usada para garantir que ninguém lhe jogue uma. Só se atira uma bomba atômica num país que não tem outra para jogar de volta. Durante toda a Guerra Fria, a tão propalada guerra nuclear não aconteceu justamente porque os dois lados possuíam armas atômicas e sabiam que, se lançassem uma, estariam garantindo sua própria destruição já que outra seria lançada de volta.

É exatamente por isso que os EUA entraram numa crise nervosa com a possibilidade de o mundo entrar em acordo com o Irã e que Hillary Clinton se pôs a gritar histericamente como se estivesse diante de Monica Lewinsky. Os americanos sabem que, com a atual crise, estão frágeis e têm medo de que algum dos milhares de inimigos que eles fizeram durante mais de meio século de política externa estilo "rolo compressor" se aproveite disso para atacá-lo. Eles querem poder jogar uma bomba no Irã caso a situação fique muito feia, coisa que não poderão se o Irã tiver suas próprias armas (é bom lembrar que, até hoje, as únicas bombas atômicas que explodiram no mundo não foram atiradas por nenhum dos comedores de criancinhas, mas pelos próprios Estados Unidos).


Os EUA, como sempre, não estão interessados na promoção da democracia ou da paz mundial, estão interessados no precioso petróleo. Agora que os exorbitantes gastos improdutivos com a guerra no Iraque acabaram por transformar o país de Saddam Hussein num "mato sem coelho", eles precisam do que o Irã tem e não lhes oferece sob nenhuma circunstância. Parecem, contudo, estar esquecendo que as sanções só pioram a tensão e aumentam as chances de um conflito (Principalmente porque, como eles mesmos gostam de lembrar, Ahmadinejad não é flor que se cheire. Eu, pessoalmente, não gostaria de provocar sua raiva.).


Ainda dentro desse tópico, gostaria de propor mais uma reflexão. E a Arábia Saudita? Impera lá uma ditadura muito mais ferrenha que a de Ahmadinejad. Por que será que ninguém fala disso? Por que será que ninguém denuncia os muitos abusos e horrorosas violações de direitos humanos que lá ocorrem? Cadê as sanções? Será que é porque a Arábia Saudita é aliada não só dos EUA, mas das grandes potências em geral? Será que é porque o petróleo saudita está à disposição dos desejos dos defensores da democracia? Gostaria também de sugerir uma adivinhação. Se eu disser que um líder político chegou ao poder por meio de eleições fraudulentas, que em seu governo houve cassação de liberdades civis de cidadãos e que, nessa lógica estabelecida, qualquer um pode ser preso sem justificativa e sem processo, de quem estou falando? Posso, sem dúvida, estar falando de Ahmadinejad, mas também posso estar falando de Baby Bush. Como já disse, não me lembro de nenhuma sanção imposta a esse último (talvez seja amnésia).


Enfim, meu recado a todos é que já está na hora de pararmos com a hipocrisia. Se vamos vestir a camisa dos campeões da democracia e da paz, então devemos defender punições a todos os que as ameaçam, inclusive as superpotências e seus aliados escusos. A democracia, para se realizar em sua plenitude, precisa ser conquistada. Se alguém ainda acha que minhas elucubrações sobre ela ao longo desta crônica estão fora da realidade, sugiro uma rápida olhada para o caso brasileiro. Sem dúvida, a nossa democracia está no grupo das desvalorizadas e corruptas. Ao verificarmos a sua origem, notamos que ela não foi imposta, mas também não foi conquistada, foi acordada.


Ao fim da nossa ditadura militar, o processo de abertura política foi conduzido por militares e pelos setores civis mais conservadores. O único opositor de primeira hora que participou foi Tancredo Neves (que, mesmo assim, fazia oposição à mineira, com muito jogo de cintura e pouco embate direto). Todos os outros eram opositores de segundo ou de último momento. Ulysses Guimarães apoiou o golpe, Mário Covas apoiou o golpe, Aureliano Chaves foi vice de Figueiredo (nem vou falar em Sarney, membro do partido do governo até meses antes das eleições, quando brigou com os militares e acabou vice de Tancredo). Os demais adversários de primeira hora ficaram de fora. Lula não participou, Brizola não participou, Luís Carlos Prestes não participou. Essas figuras só vieram a entrar mais tarde, quando da elaboração da Constituição de 1988, que, mesmo assim, foi coordenada, num primeiro momento por Afonso Arinos, de trajetória política conservadora na UDN e na ARENA, e depois pelo já citado Ulysses Guimarães. Bem, o resultado é esse que está aí. É preciso refletir sobre esses aspectos da democracia no Brasil e no mundo para deixarmos de ser democratas de Figueiredo e nos tornarmos verdadeiros democratas.


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Atualizado em ( 16-Jul-2010 )
 
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