Agradecimentos

(Discurso de paraninfo proferido na cerimônia de formatura da 8a. série - 2002)

 

É com grande satisfação que vos falo hoje, nesta data tão festiva e que representa o final de mais um ciclo na vida escolar e, assim espero, na vida pessoal de cada um de vocês.  Escolar porque tenho a certeza de que tiveram aqui, no colégio de São Bento, durante todo o ensino fundamental, uma base mais que consistente dos conteúdos disciplinares que serão o arcabouço de todo o florescer intelectual de suas vidas.  Pessoal porque desta instituição de ensino levarão mais do que provas e trabalhos, levarão princípios morais, éticos, valores humanos e a compreensão da importância de Deus em suas vidas. 

Não podemos, com efeito, acreditar que essas duas instâncias, a vida escolar e a vida pessoal, sejam desarticuladas.  O conteúdo programático de cada disciplina e a evolução interior e espiritual são partes de uma mesma coisa, de um mesmo crescimento.  A metodologia do Colégio de São Bento é profundamente humanista, ou seja, a educação aqui proposta e praticada está a serviço do homem.  Não se coloca, por isso, aquém da formação intelectual, mas além desta, visando também a formação humana.  E fico muito feliz por saber que vocês, meninos que considero agora muito especiais em minha vida, puderam contar com essa estrutura de educação no ensino fundamental.

Cheguei ao colégio de São Bento neste ano para assumir o curso de Cultura Clássica, criado e mantido com muito amor por esta instituição de ensino.  Procurei engrandecer cada qualidade e cada virtude de meus alunos em nossas aulas, preocupado não só com a transmissão de conhecimento, mas fundamentalmente com a produção de um saber.  Para mim, informar é o grande objetivo de um educador, nunca enformar, ou seja, colocar o aluno em uma fôrma alienante em que o pensamento crítico perde as asas.  Se assim fosse, não estaríamos formando sujeitos autônomos, capazes de refletir sobre o seu tempo e sobre si mesmos.  E foi pela informação e pelo estímulo das capacidades naturais de cada um que encontrei talento musical, poético, jornalístico, cinematográfico, plástico – dons naturais que estão dentro de vocês.  Meu trabalho foi apenas ajudá-los a perceber tudo isso e orientá-los da melhor forma possível.  Por este mesmo caminho, encontrei boa vontade, disposição, empolgação, amizade, respeito.

Ora, é claro que encontrei muitas outras coisas: resistência na língua grega (“professor, nunca vou aprender a escrever em grego”), e aprenderam; reclamações das leituras, principalmente da Ilíada, motivo pelo qual tentei de alguma forma teatralizar as aulas, contando histórias, trazendo outros mitos, etc; encontrei também algumas brincadeiras descontextualizadas que precisaram ser repreendidas com cartão amarelo ou vermelho; algumas piadas como aquele aviso assustador colado no teto e que dizia “cuidado: teto”; coisas próprias da juventude e de quem é cheio de vida.  Aliás, se fossem apáticos teríamos um problema.  Mas vocês são ativos (ou superativos em algumas horas) e demonstraram interesse pelo conteúdo de cada aula.  Com isso, pude perceber a participação de muitos pais auxiliando pesquisas, motivando seus filhos, acompanhando o desenvolvimento e o aprendizado.  Assim deve se dar o processo de ensino: com a participação da família – peça fundamental de um quebra-cabeça que se quer finalizado.  Por isso a palavra participar, do latim participare, significa dar uma parte em.  Plauto, em sua obra Miles Gloriosus (soldado glorioso), utiliza o verbo participar com sentido de repartir.  Repartamos, então, a fatia desta deliciosa e importante tarefa de humanizar, de educar e de fazermo-nos presente na vida desses jovens.  Afinal, seguindo os versos de João Cabral de Melo Neto, “Um galo sozinho não tece uma manhã, ele precisará sempre de outros galos”. 

Quanto a vocês, meninos, gostaria de agradecer ab imo corde (do fundo do meu coração) por esse ano de amizade, de carinho, de respeito, de compreensão, de aprendizado.  Sim, porque o professor, quando ensina, aprende, e o aluno, quando aprende, ensina.  O que houve, então, em nossas aulas de Cultura Clássica e mesmo fora delas, foi uma troca de saberes.  Aprendi a cada contato um pouco mais sobre cada um de vocês e muito mais sobre mim mesmo.  Crescemos juntos.  Agora vocês enfrentarão novas etapas em suas vidas.  Meu papel como professor acaba aqui, mas as funções de educador e amigo continuam, porque os laços que criamos estarão sempre nos unindo, e isso independe da distância que porventura irá nos separar um dia. 

 Por isso, digo em público o que havia dito em cada turma em nossa última aula: a coroa de louros que hoje me oferecem (e que fique clara a metáfora) deve, um dia, estar na cabeça de cada um de vocês.  O que quero dizer com isso é que o professor torce pela vitória de seus alunos nas diversas empreitadas da vida, e ao observar o sucesso daqueles que passaram por sua sala de aula, percebe que foi ele mesmo um tijolo nesta construção e aí está a melhor recompensa de um educador. 

            Gostaria de fazer breves agradecimentos antes de encerrar esse discurso: em primeiro lugar, a D. Matias, por ter acreditado em meu trabalho.  Agradeço também a toda a equipe de língua portuguesa, pelo carinho e acolhida, em especial ao professor Cunha, que foi um anjo quando iniciei minhas aulas de apoio de português, digno, atencioso, profissional.  Não poderia esquecer de dizer o meu muito obrigado ao meu coordenador Mário da Silveira, sem o qual meu trabalho não teria anteparo suficiente para funcionar como funcionou.  Em penúltimo lugar agradeço ao grande herói da minha vida, meu pai, que aqui hoje se encontra.  Gostaria de dizer-lhe que espero um dia ser tão digno quanto ele e que se não fosse a minha estrutura familiar eu não estaria aqui, a pedido de quase 108 alunos.  E por último, como não poderia deixar de ser, faço um agradecimento aos “meus meninos”, como costumo chamá-los, dizendo, como sempre disse, que eu acredito em vocês.  Acredito que, seguindo os ensinamentos que receberam, vocês serão homens honestos, sinceros, de caráter e de sucesso.  Eu não poderia ser um educador se não acreditasse em meus alunos, porque para mim a educação é, antes de tudo, um ato de fé no outro. 

            Muito obrigado.   

Luiz Fernando de Moraes Barros