Entrevista com Jean-Pierre Vernant, O Estado de São Paulo – Caderno 2 – 05/08/2001
O francês Jean-Pierre Vernant é
considerado o maior helenista vivo. Nome familiar aos estudantes de filosofia,
o autor francês tem vários livros publicados em português, entre eles Universo,
os Deuses, os Homens (Cia. das Letras), As Origens do Pensamento Grego
(Bertrand Brasil), A Morte nos Olhos (Zahar), Mito e Sociedade na Grécia Antiga
(José Olympio), Mito e Tragédia na Grécia Antiga (Perspectiva). Sai agora no
Brasil outro volume fundamental, Entre Mito & Política, antologia de
textos, uma espécie de "suma" de toda uma vida de pesquisador.
Nascido em 1914, Vernant participou
ativamente da Resistência francesa e nunca abandonou sua vocação de militante.
Fato que contrasta, em aparência, com o clichê do intelectual isolado em sua
torre de marfim. Ao contrário, Vernant, que carrega a justa fama de ter
colocado os estudos helênicos em outro nível, poderia lembrar que foi na Grécia
antiga que o ser humano foi definido como animal político. No novo livro, ele
trafega entre mito e política com dupla mão de direção: investigando o que há
de político no mito e o que há de mítico na política. Tudo muito atual, embora
às vezes ele fale de fatos e gente de 2.500 anos atrás. Na verdade, Vernant
olha o passado para melhor entender o presente.
Como o senhor descobriu a Grécia?
Jean-Pierre Vernant - Em primeiro
lugar, fisicamente, por causa de uma viagem em 1935. Imaginem um país muito
diferente do de hoje, sem turistas, que era percorrido a pé, um país de
camponeses e de marinheiros muito hospitaleiros, que davam ao estrangeiro a
sensação de que sua visita era uma honra para eles.
A civilização da Grécia antiga é comumente sintetizada entre nós numa fórmula: o milagre grego. O sr. aceita isso?
Vernant - Absolutamente não! Essa
idéia, expressa por Renan e amplamente retomada depois dele, segundo a qual a
Grécia, e somente a Grécia, teria inventado a razão, o pensamento científico, a
filosofia e todos os grandes valores universais, parece-me inaceitável. É
verdade que, por volta do século 7.º antes de nossa era, houve um conjunto de
fenômenos complexos. Em primeiro lugar, a passagem de uma civilização oral para
uma cultura escrita e de uma palavra poética e profética - a de Homero e Hesíodo
- para um discurso lógico e demonstrativo - o de Platão e Aristóteles. Ao mesmo
tempo, o antigo sistema de governo, mantido por um rei ou por um grupo
aristocrático, dá lugar à organização da cidade (polis), na qual todos os
cidadãos podem discutir igualmente e concorrer à decisão coletiva. No seio
desse duplo processo cultural e político, é impossível discernir onde está a
causa e o efeito. Entretanto, o triunfo do logos na era clássica foi
desfavorável aos gregos, cuja civilização não tem, portanto, nada de
miraculosa: na realidade, não tentavam compreender o que contradiz a esse
princípio lógico de identidade, particularmente os fenômenos exteriores, que
não se prestam a demonstrações nem ao cálculo. É por isso que não existiu na
realidade uma física grega, por causa da ausência da experimentação e da
aplicação do cálculo à realidade.
O surgimento e a afirmação do discurso lógico não deveriam levar ao desaparecimento do mito?
Vernant - Mythos significa apenas
relato, narração, embora, entre os gregos, os termos mythos e logos não se
oponham entre si. Essa palavra serve hoje para designar, na história do
pensamento grego, uma tradição transmitida oralmente e que não se insere na
ordem do racional. Observe que os mythoi (mitos) não são um apanágio dos
gregos. Nossa ciência atual está repleta de mithos: por acaso o big-bang
original de nossos cientistas seria muito diferente do chaos (caos) evocado por
Hesíodo, esse camponês da Beócia do século 8.º antes de Cristo? As narrativas
da origem transmitidas pelos mitos continuam inteiramente atuais na Grécia
clássica, porque respondem a desafios relacionados com a identidade: o grego
sabe de onde é porque conhece de cor todas essas histórias. Além disso, essas
narrativas transmitem modos de ser e de comportar-se. Em Homero, aprende-se a
trabalhar, a navegar, a fazer a guerra e a morrer - afirmava Platão. A tradição
mitológica define assim um estilo exemplar de existência, nos planos moral e
estético, que para os gregos se confundem.
A mitologia assim descrita exprime o
essencial da religião grega?
Vernant - Não. Apenas em parte.
Naturalmente, ela se refere a deuses aos quais devem ser rendidas honras, junto
aos quais os humanos se sentem inferiores ao nada e cujo brilho divino não
chega até os mortais porque estes não são dignos. Mas a religião está
relacionada também com a prática, com rituais que acompanham e ordenam todos os
gestos da existência. De fato, a religião está em toda a parte, no modo de
comer, de entrar e sair, de se reunir na "agorá". Nada separa a
esfera religiosa da esfera civil: o religioso é político, o político é
religioso. Na vida coletiva, a irreligião é inconcebível.